O que deveria ser motivo de orgulho e prosperidade virou sinônimo de angústia no campo. A supersafra de cebola 2025-2026, resultado de tecnologia, dedicação e clima favorável, expôs uma dura realidade: produzir mais nem sempre significa ganhar mais. Em Santa Catarina e em todo o Brasil, o excesso de oferta derrubou os preços a níveis que já não cobrem sequer o custo da produção.
Impulsionados por variedades mais produtivas desenvolvidas pela Epagri, os agricultores catarinenses registraram um aumento de até 25% na produção. Ao mesmo tempo, outros estados do Sul também colheram safras robustas. O resultado foi inevitável: mercado saturado, preços despencando e produtores vendendo no prejuízo.
Hoje, o quilo da cebola é comercializado entre R$ 0,65 e R$ 0,70 — menos da metade do custo de produção, que chega a R$ 1,40 por quilo. A conta não fecha. O prejuízo médio gira em torno de 50%, uma ferida aberta nas finanças de centenas de famílias.
Para quem planta entre sete e oito hectares, a perda pode alcançar R$ 200 mil em apenas uma safra. O impacto vai muito além da porteira. O dinheiro que deixaria de circular atinge diretamente o comércio, os serviços e a economia de cidades inteiras. O efeito dominó já levou sete municípios do Alto Vale do Itajaí a decretarem Situação de Emergência: Ituporanga, Alfredo Wagner, Imbuia, Vidal Ramos, Agrolândia, Petrolândia e Aurora.
Na chamada Capital Nacional da Cebola, o sentimento é de alerta. O presidente do Sindicato Rural de Ituporanga, Arny Mohr, que há quatro décadas vive da terra, reconhece o valor histórico da cultura, mas defende uma mudança urgente de estratégia. Para ele, o futuro passa pela diversificação: integrar a produção com aves e suínos, investir em frango orgânico em áreas montanhosas e ampliar a horticultura.
“Não se trata de abandonar a cebola, mas de garantir que o produtor tenha outras fontes de renda para sobreviver às oscilações do mercado”, é o entendimento que ecoa entre lideranças rurais.
Apesar do cenário difícil, a inovação começa a apontar caminhos. Uma iniciativa pioneira da Roling Alimentos trouxe um sopro de esperança ao lançar no mercado cebola em conserva com sabor defumado, agregando valor a um produto que, até então, dependia quase exclusivamente da venda in natura.
Entre a fartura da colheita e a escassez no bolso, o produtor vive um paradoxo cruel. A supersafra que encheu os armazéns esvaziou as contas bancárias. E no silêncio das lavouras, onde antes havia celebração, agora cresce uma certeza amarga: é preciso reinventar o futuro antes que a abundância se torne sinônimo de abandono.









