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A BR-116 é um rio de asfalto, barulhento e impiedoso, onde nem o tempo tem tempo pra parar. Mas, desde o último dia 21, um ponto discreto no acostamento subverte essa lógica. Não é um veículo, não tem motor e não carrega nenhuma carga, pelo menos não comercial. É o passo ritmado de Vilmar Melere, um timboense de 61 anos que decidiu que a gratidão é um destino que não se alcança de carro.
Ele saiu do bairro Vila Germer, em Timbó, com uma mochila de 1,9 kg e um sonho que pesa bem mais que isso. O destino? O Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo. São 789 quilômetros. Uma jornada de quatorze dias que recomeça todas as madrugadas. Às 2h45 da manhã para ser específico, enquanto o sol ainda mergulha no sono.
A motivação de Vilmar é contagiante. Ele não caminha por obrigação, mas por uma alegria profunda. O “Projeto 62”, como cita, é a sua festa particular: ele quer comemorar o aniversário de 62 anos, no dia 4 de abril, aos pés da Padroeira.
Vilmar já conhece o cansaço do caminho; já esteve nessa e em outras rotas em anos anteriores. Sempre em grupo e com apoio. Desta vez, ele decidiu seguir fisicamente sozinho. Mas só fisicamente… Consigo, ele carrega uma cruz de madeira fina, sugestão do amigo Silvestre. O que era para ser um símbolo pessoal virou um estandarte coletivo.
“A cruz está cheia de fitas”, conta ele, com a voz embargada pelo cansaço e pela emoção. Cada fita amarrada ali é o pedido de alguém que viu nele um mensageiro. Há o bilhete de uma mãe pedindo pela cura do filho, um bebê de apenas um ano, acometido pelo câncer; há orações por enfermos e agradecimentos silenciosos. Vilmar não caminha mais apenas pelos seus 62 anos. Ele caminha por um exército de pessoas que depositaram nele a fé e a esperança de um milagre.
Sua bagagem é um exercício de desapego: três camisetas, três mudas de roupa íntima e a disciplina de quem sabe que, na estrada, ou se chega ao ponto de descanso, ou se dorme no relento. Enquanto o mundo ainda adormece, às 4h da manhã, ele já está na beira da pista. Enfrentou a chuva em um dia e o sol a pino no outro. Subiu a Serra de Curitiba no gogó, poupando o corpo para não parar antes da hora.
“Quem disser que faz 800 km sem cansar, está mentindo”, desabafa. Mas o cansaço de Vilmar tem um antídoto poderoso: a fé. Ele faz questão de repetir, quase como um mantra: “Não é promessa, é agradecimento”. No dicionário do Sr. Vilmar, a vida não é uma negociação com o divino, é uma dívida de amor que ele escolheu pagar com o suor do próprio rosto.
Sob a proteção da Padroeira, seu Vilmar pede que a caminhada seja segura e tranquila, guiado pela certeza de que “Deus não coloca obstáculos que a gente não consiga passar”.
Vilmar Melere não gosta de entrevistas. Prefere o silêncio do asfalto. Diz que o mundo já está cheio de notícias ruins e que ele só quer ser um ponto de luz, um exemplo de que “nada vem por acaso” e que a bondade ainda é a melhor oração.
Enquanto ele avança em direção ao Vale do Paraíba, em Timbó a família garante que ninguém perca um passo dessa história. Vilmar compartilha cada momento em suas redes sociais, mas o trabalho da “retaguarda”, a edição dos vídeos e a gestão das postagens, fica por conta do filho Rafael e da nora Karina. São eles que organizam os registros para que os amigos e a comunidade acompanhem a evolução do peregrino. “Sem família não somos ninguém”, reconhece Vilmar, citando também o apoio da esposa Isabel, do filho Ricardo e dos netos Miguel e Maria.
Quando o Sr. Vilmar avistar o Santuário Nacional de Aparecida, daqui a alguns dias, ele não estará apenas chegando ao fim de 789 km. Ele estará provando que, em um mundo de conexões instantâneas e superficiais, a jornada mais profunda ainda é aquela que fazemos em nosso interior, movidos pelo coração e guiados pela fé. Como ele mesmo resume: “Nada teria valor se fosse fácil. Vou chegar lá e dizer: puxa vida, valeu a pena!”.
Boa caminhada, Sr. Vilmar. Aparecida o espera, e Timbó caminha junto com o senhor!
Redação Cultura FM | Julian Vilvert
Foto: redes sociais